fim do fim de semana

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a música há muito tempo se extinguiu. comeu os frutos frescos que comprara. deixou o ar entrar pela janela. vestiu-se de pudor e adormeceu.
apenas desabafos. ocasionais.
o soalho aquece à luz de inverno.
mas é verão. talvez. só que hoje a luz que viola os vidros duplos, não tem outra cor que não seja a de inverno. a temperatura é que difere. apenas.
que acalmia de alma lhe advem de estar assim, numa solidão doce como se o seu leito não fosse o soalho, as tiras de madeira, mas a terra!
o tempo. o tempo é o que parece ser.
hoje ela é uma mulher serena e é inverno lá fora. a sua casa de madeira o quente e sereno aconchego.
o piano que em fundo ouve, sacia a sede de arte que nunca a abandona.
inverno na luz no som e no silêncio.
o tempo hoje fez o seu jogo e ali mesmo, no chão, irá adormecer.
recorri à música, mas era tropical, que mais dizer? toda a casa foi invadida por notas musicais quentes impulsivas a obrigar-nos a bater o pé no chão ou baloiçar no ardor do ritmo.
Woman With Bird - by Anastas Kamburov
quando entraram no quarto para a medicação à hora certa, ela tinha unido em si duas irmãs, a liberdade e a morte.
tão bela de se ver. mais livre agora.
quando voava encontrava silèncio nas escarpas. no topo das árvores mais altas. olhava da distância e tudo era bonito, até os homens.
quando voava...
tinha dado trabalho a construção do ninho mas, voava.
agora. junto aos homens, olhando-os nos olhos, perdera o rumo a casa. de onde era?
que ventos ardilosos a tinham retirado dos fortes golpes de asa a que se acostumara desde sempre?
que árvores eram aquelas? um jardim.
que janela era aquela? guilhotina.
que homem estranho era aquele? diziam, diziam vozes à volta que era o seu.
mas como, porque magia louca iria um absurdo tal acontecer?
- os miúdos já se deitaram, estás com sono?
- estou só a terminar este parágrafo. vá-se deitando vá. eu já lá vou. boa noite caso adormeça antes.
- boa noite.
quando voava...
mas onde tinha ela posto as asas?
![]() Portrait of Woman in Red - KEES - estás tão silencioso... - estou a ouvi-la. - podias responder. sinto-me a falar para o vazio. oiço o meu eco. ainda por cima com os olhos fechados... queres dormir? se queres baixo os estores e vou para outro lado. o que não falta é espaço nesta casa... - não, obrigado. já disse, estou a ouvi-la. - já nem sei que dizia. - pronto. amuou. - não amuei nada. simplesmente esqueci. - falava do bresson. - é verdade. ele e não só ele, para quem gosta de teatro, anulam os actores.. - ele é realizador. não é encenador. - não era disso que falava. sei a diferença. você gosta dos filmes de... levantou-se. foi buscar um copo de leite e chocolate preto. não perguntou à mulher se queria ou não e voltou a sentar-se. continuou em silêncio. trincando grandes pedaços de chocolate. ela não retomou o tema ou qualquer outro. não valeria a pena. dias. noites. dias de siêncios até as depressões subitamente chegararem a uma espécie de temporário fim. - M. vamos à praia hoje com os miúdos? - dói-me a cabeça , muito! ainda por cima é domingo. eu odeio os domingos na praia, você sabe. estamos de férias, há a semana toda... - sabe, você dantes era divertida, ria muito. agora parece sempre triste. eu estou bem e você nisso. ela dantes. ela dantes era uma rapariga feliz que não passava os dias, as noites, os dias, a falar sozinha. com o marido. |